Primarização do transporte rodoviário: Quem primariza? Qual a mágica?

Antes de começar, convenhamos: primarização é uma palavra estranha. Apesar de estranha, significa basicamente o inverso da terceirização, ou seja, uma instituição deixa de contratar alguém para fazer um determinado trabalho e passa a fazer ela mesma.

Aqui vamos tratar da primarização no mercado de logística, mas especificamente no transporte rodoviário de cargas.

Nos últimos anos escutamos falar muito sobre primarização no Brasil. Talvez pelo potencial de redução de custo que ela gera, talvez pelo potencial de melhoria de gestão, fato é que as indústrias e grandes atacadistas cada vem mais pensam sobre isso. E quando falo industrias, saiba que são industrias dos mais variados segmentos: sabemos que o movimento começou e ganhou força com as tradings de grãos, mas hoje temos indústrias distribuindo os mais variados tipos de produto com uma logística primarizada. Ou seja, é um movimento que aparece como tendência e quem sabe em curto espaço de tempo se torne uma “boa prática de gestão”.

Quem primariza?

Soja, milho, produto de beleza, produto de limpeza, peças de carros, motos, , produtos químicos, cargas especiais, etc.  Será que toda indústria pode ter sua gestão de transporte rodoviário primarizado?

A resposta para essa pergunta não ajuda muito: depende.

Para entender bem esse movimento e poder formar uma resposta para essa pergunta, vamos entender primeiro o cenário de transporte rodoviário terceirizado e depois o primarizado. Assim ficará mais fácil.

Transporte Terceirizado

Normalmente a área de logística das indústrias e atacadistas celebram contratos com transportadoras ou então divulgam possibilidades de cargas através de lotes. As transportadoras, por sua vez, concorrem pelas cargas e realizam o serviço utilizando sua frota.

– “Ok, mas peraí, a transportadora sempre utiliza sua frota própria?”

Nem sempre. Existem tem modalidades comuns no mercado de transporte:

  • Frota própria: caminhões da transportadora, conjunto completo, ativo imobilizado da transportadora.
  • Terceiros: autônomos ou equiparados que são subcontratados pelas transportadoras para realizar os fretes em seu nome.
  • Agregados: normalmente autônomos ou equiparados que entram apenas com o cavalo mecânico, e a transportadora fornece a carreta (semirreboque).

Essa relação entre indústria e transportadora por vezes é garantida em contrato, e isso normalmente ocorre quando a mercadoria ou o nível de especialização do processo logístico é alto e a indústria não considera válida a sua manutenção interna, por exemplo: transporte  de produtos químicos, nível de especialização alto, segurança e responsabilidade sobre o processo logístico é tão apurado que uma empresa especialista (no caso, a transportadora) precisa prestar solução a indústria. Outro exemplo é o transporte no mercosul, que demanda além de uma estrutura física para armazenamento, uma burocracia e um processo tão extenso e complexo que afasta a vontade de qualquer indústria primarizar esse tipo de transporte.

Transporte Primarizado

Primeiro “click” que passa na cabeça do gestor de logística de um indústria quando pensa sobre essa prática:

– “Se a transportadora que eu contrato, subcontrata um autônomo ou um equiparado, porque eu mesmo não posso fazer isso e deixar a margem em minha operação?” 

Depois dessa pergunta, vem as próximas análises:

– “A operação de transporte prevê alguma forma de especialização? (equipamento especial, armazenagem, documentação específica, etc)”

Se não prevê especialização, a coragem aumenta.

– “A operação ocorre com distribuição porta a porta ou em estilo fracionado?”

Se não ocorre como fracionado, a coragem aumenta mais ainda.

Enfim, podemos dividir as operações de transporte em duas grandes classes:

  • Operações não-estruturadas, que não prevê especialização, que não demandam equipamento específico, que não operam com formato fracionado. Seria como considerar um serviço commodity.
  • Operações estruturadas, que demandam de fato uma gestão especialista, seja por envolvimento de armazenagem, por documentação específica, por dependência de equipamentos especiais.

Assim, entende-se que não é esperado que indústrias optem por adquirir frotas próprias e todas suas complexidades (manutenção, pneus, combustível, motoristas, etc) para conduzir operações estruturadas, porém, do outro lado, a tendência é que indústrias que tem operações simples, não estruturadas, cada vez mais pensem sobre a possibilidade da primarização.

Qual a mágica da primarização?

A lógica é simples: manter a margem posta sobre a subcontratação dentro da industria.

Se em uma operação não-estruturada, a indústria contrata uma transportadora que por sua vez contrata uma terceiro (gerando uma quarterização), porque a indústria não pode contratar esse terceiro?

Depois de pensar assim, parece obvio, mas a execução disso não é tão simples assim.

Quais os desafios da primarização?

São muitos desafios, elenco aqui alguns dos principais:

  1. Captação de motoristas autônomos ou equiparados: parece simples mas não é. Transportadoras já conhecem essas pessoas e já tem relação com elas. Fato é que esse é um mercado extremamente informal e desprovido de tecnologia, com muitos intermediários, o que acaba dificultando o acesso da indústria aos motoristas.
  2. Construção de uma transportadora: quem esta dentro de uma indústria, principalmente se for uma multinacional, sabe que a tarefa de convencer um diretor que agora precisaremos abrir um novo CNPJ para operarmos como uma transportadora. Apesar de obviamente valer a pena, o cálculo tem que mostrar explicitamente a vantagem financeira.
  3. Sistema de gestão: comprar sistema é sempre uma coisa complicada. Já pensou que além de convencer seu diretor de abrir a transportadora você tem que provar pra ele a necessidade de uma ferramenta tecnológica que te ajude nos processos burocráticos? Volta lá na sua planilha de custos e coloca mais esse custo.
  4. Outra dimensão: não adianta você colocar sua equipe para falar com os motoristas e mostrar a eles que o budget do projeto esta estourado e que temos um novo target pra negociarmos. Você pode até achar que isso é uma bobagem, mas não. A linguagem da sua equipe, o tratamento com os motoristas é o detalhe que garante o sucesso de um projeto desse. Leve isso MUITO a serio.
  5. Questões fiscais: abrindo uma transportadora, você irá emitir conhecimento de transporte, que é tributado por PIS, Cofins e por diversas vezes, ICMS. Apesar disso, você subcontrata, então teoricamente você tem crédito para aproveitar e garantir a margem adequada. Certo? Certíssimo.  Porém, será que o motorista que irá contratar tem ferramental para emitir um CT-e contra sua transportadora para efetivar o crédito? E o fiscal da indústria, conhece desse processo?

Enfim, por tudo isso que a resposta é depende.

Depende da sua vontade de brigar por essa causa. Financeiramente é fácil de provar que é viável. Agora, conhecendo esses desafios, a coragem aumenta ou baixa? Depende?

 

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